Design editorial··6 min de leitura

Por Diego Gabriel Barbosa Azevedo, Founder e Full Stack Marketer

O ano perfeito do Operário, em papel.

Título invicto da Divisão de Acesso, título da Série C e o acesso à Série B. O clube resolveu imprimir o ano em vez de deixar tudo no feed, e a diagramação teve que decidir o que ficava em cada página. Oito anos depois, o clube é bicampeão paranaense.

Almanaque do Operário 2018 fechado sobre uma mesa de madeira, com a capa 'um ano perfeito' e a foto da equipe erguendo o troféu.
A capa fecha o ano em três palavras: 2018, um ano perfeito.

Em 2018 o Operário Ferroviário fez a temporada que o clube passou a chamar de perfeita. No fim daquele ano, em vez de deixar a história espalhada em posts, o clube imprimiu um almanaque.

Esse texto é sobre o objeto, não sobre o time. Sobre o que muda quando um ano de clube precisa caber em uma grade de página dupla, e por que vale a pena imprimir algo num tempo em que tudo nasce para a tela.

O ano em que o Fantasma virou a chave

Em 16 de maio de 2018 o Operário goleou o Cascavel por 7 a 0 em Ponta Grossa, depois do 2 a 1 fora, e fechou o título invicto da Divisão de Acesso, a segunda divisão paranaense. Em setembro veio a Série C, com o 3 a 3 na ida contra o Cuiabá e o 1 a 0 na volta, e junto com o título veio o acesso à Série B.

Somados ao título da Série D no ano anterior, esses resultados fizeram do Operário o primeiro clube brasileiro a emendar as conquistas da Série D e da Série C. Daí a palavra na capa.

Página dupla do almanaque com o título 'divisão de acesso: a estreia' e a foto de um jogador do Operário chutando a bola.Página do almanaque com o título 'o Fantasma pinta o sete contra o Cascavel' e a foto do capitão erguendo o troféu.
Cada competição vira um capítulo, com abertura própria e um título que funciona como manchete.

Por que almanaque, e não retrospectiva

Uma retrospectiva de rede social dura o tempo de um story. Ela é feita para ser consumida na semana em que sai e depois some no meio do feed, porque o formato é assim mesmo.

O almanaque faz o contrário. Ele obriga a escolher: o que fica e o que não fica, qual jogo merece página dupla, qual foto ganha o tamanho grande e qual entra como miniatura. Essa escolha é o que transforma uma pilha de acontecimentos em narrativa. E ele fica na estante, que é onde um torcedor guarda o que importa.

Um ano registrado em papel não disputa atenção com o próximo post.

As decisões de diagramação

A parte que eu assinei nesse projeto foi a diagramação. Algumas decisões que sustentam o miolo inteiro:

  • Cada competição é um capítulo, com página de abertura e um título curto que funciona como manchete de jornal esportivo.
  • A tipografia condensada em caixa alta é reservada para esses títulos. No corpo do texto ela sai de cena e entra uma serifada pequena, em coluna estreita, que é o que faz o leitor aguentar páginas seguidas.
  • O verde do clube entra como bloco chapado atrás das frases de efeito, nunca como fundo de texto longo. Cor forte cansa a leitura.
  • As fotos de jogo sangram até a borda e as de bastidor entram pequenas, em série. A diferença de tamanho conta quem é protagonista na página sem precisar de legenda.
  • Uma palavra grande repetida em transparência sobre a foto, como o "inesquecível" da estreia, dá textura à página sem competir com o título.
Página dupla de abertura do almanaque, com o título 'lance inicial' e uma reportagem sobre o programa de sócio torcedor do clube.
O almanaque não fala só de jogo. Uma das páginas é sobre o sócio torcedor e o crescimento da loja do clube.

Vale reparar nessa página: o almanaque dedica espaço ao que acontece fora das quatro linhas, o programa de sócio torcedor e a operação da loja. É a parte que um clube costuma achar sem graça e que é exatamente o que mostra gestão para quem lê.

O que se ganha ao registrar o próprio ano

Clube, cooperativa, indústria ou escola, a lógica é a mesma. A operação do dia a dia produz muita coisa e guarda pouca. Quando chega a hora de provar trajetória, para um patrocinador, para um conselho ou para a própria equipe, quase sempre falta material organizado.

Um registro anual resolve isso antes de virar problema. Ele serve de argumento comercial, de peça de relacionamento e de memória interna. E tem um efeito que só aparece depois: o valor do registro cresce com o tempo. O almanaque de 2018 diz mais hoje, com o Operário campeão paranaense em 2025 e em 2026, do que dizia no ano em que saiu da gráfica.

Onde essa história chegou

Oito anos depois, o "ano perfeito" da capa parece menos exagero e mais ponto de partida. Em março de 2026 o Operário bateu o Londrina nos pênaltis, por 4 a 3, depois de 0 a 0 no jogo de volta em Londrina, e fechou o bicampeonato paranaense. É o terceiro título estadual da história do clube, depois de 2015 e 2025, em 113 anos de existência.

O caminho até aqui não foi reto. Depois do acesso de 2018 o Operário levou quatro temporadas na Série B, caiu para a Série C em 2022, voltou, e fez a melhor campanha da fase em 2024, com um sétimo lugar que brigou pelo acesso à Série A até as últimas rodadas. Em 2026 o clube segue na Série B, ao lado do Londrina, o mesmo adversário da final estadual.

É essa trajetória, mais do que um ano isolado, que dá peso ao registro impresso. Um almanaque não precisava prever o bicampeonato para valer a pena: bastava guardar o ano em que a virada começou.

Ficha técnica

O almanaque foi um trabalho de equipe, feito para a D Play em 2019, antes da Uspectro existir. Fotografia de José Tramontin, redação de Vitor Carvalho e diagramação minha. O expediente da publicação traz ainda Bruna Khailla e Candido Neto, e a impressão foi da Gráfica Vila Velha.

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